Homens e mulheres – as diferenças de gênero realmente existem quando o assunto é saúde mental?

É muito comum escutarmos que mulheres se cuidam mais que os homens, tanto em aspectos físicos quanto em aspectos emocionais. De fato esta é uma realidade comprovada pelo Ministério da Saúde (2004). Porém, isso não é tão “bonitinho” assim. As mulheres realmente se preocupam mais que muitos homens quando o assunto é saúde, mas também adoecem com maior frequência e a causa disso se relaciona muito mais à discriminação do que a fatores exclusivamente biológicos.

Estranho isso não? Parece invenção, mas não é.

O último relatório sobre a situação da População Mundial de 2002, revelou que embora as mulheres trabalhem mais horas por dia que os homens, o índice de mulheres em situação de pobreza é bem maior, um dos fatores se refere ao fato de que no mínimo metade do tempo do trabalho feminino é gasto com atividades não remuneradas, o que diminui seu acesso à muitos bens sociais como a saúde por exemplo. E provavelmente é por isso também que há mais mulheres frequentando o SUS do que os homens. O Ministério da Saúde considera muito relevante a questão de gênero na formulação de políticas públicas, visto que as desigualdades entre homens e mulheres causam muitos impactos na saúde (física e emocional) destas. Sabe-se que a mortalidade por violência afeta em sua grande maioria os homens, mas a morbidade por violência doméstica e sexual é prioritariamente feminina.

Ampliando um pouco esses dados, é possível relembrar que, de uma forma geral as mulheres ganham menos e estão concentradas em trabalhos que são menos valorizados, além da dupla jornada de trabalho e de uma forma geral, menor acesso aos meios de decisão política e econômica. Então, antes de pensar a questão dos transtornos mentais e tendências individuais aos mesmos, é preciso olhar de frente para o contexto de vida ao qual as mulheres estão submetidas atualmente e reconhecer que há uma grande sobrecarga de responsabilidades. E isso já é o bastante para afetar negativamente o sistema psíquico de qualquer pessoa. E só pra completar, é importante rememorar que, de uma forma bem simplificada, o conceito de gênero foi construído socialmente justamente para ditar os comportamentos adequados ou não para cada um (de acordo com interesses corporativos, é claro).

E há quem diga que as mulheres estão de “mimimi”. Obviamente é preciso se atentar para alguns exageros e desequilíbrios que existem por aí quando o assunto é a luta da mulher, mas o foco neste momento não são essas dissonâncias. Estou me referindo à dados sérios sob os quais muitos programas governamentais são construídos e a saúde pública repensada. Portanto, isso não é algo a ser discutido e sim apresentado, afinal os dados se referem exclusivamente à realidade (e isso porque aqui está tudo muito resumido), independente de existir ou não grupos que distorcem os fatos, seja a “favor” ou contra a mulher.

 Diante desta realidade o Ministério da Saúde criou a Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher (2004) como forma de comprometimento com as ações de saúde para mulheres. Mas e a nível individual, o que cada uma pode fazer para contribuir para sua própria saúde mental? Além de conhecer e reivindicar seus direitos políticos e sociais, é muito importante o autocuidado e isto pode ser feito de diversas maneiras. Devido a extensão do assunto, tratarei disso num próximo momento. Porém, reforçarei duas coisas que já foram ditas:

1- é importante tentar superar o enfoque unicamente biológico de seus próprios problemas.

2- considerar também o contexto social atual.

 E acrescento que é preciso também maior conhecimento de si e uma atitude reflexiva de como cada uma se posiciona nesse contexto e se há algo a mudar neste posicionamento que possa favorecer sua saúde integral.

Por enquanto fico por aqui.

Abraços!

Referências:
Ministério da Saúde: Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da Mulher – Princípios e Diretrizes, 2004.

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